Duas horas da manhã, aula na manhã seguinte. Não durmo pois acordei tarde. Não durmo, pois dormi de tarde (ler deitado é uma ilusão que ainda não aprendi a respeitar). E o sono que tinha submergiu nesta caneca de café que de súbito quis beber. Decepcionei-me ao perceber que o livro sobre Picasso está com as folhas coladas, e assim, não posso lê-lo. Hei de ler outra coisa, então.
Depois de tomar café, assistindo o último episódio do Chapolim Colorado, em espanhol, decidi dar uma segunda chance para um CD de poemas do Drummond que comprei, e não gostei. Eu disse, ouvi o CD e não gostei da mulher que recita os poemas. Ela me respondeu: Mas fora a mulher que recita? Bom, fora a mulher que recita, sobra apenas o poema do Drummond. E sobre Drummond eu não preciso falar.
Esta segunda tentativa de audição do CD não está sendo muito melhor do que a primeira. Talvez um pouco. Mas não muito. Penso que, depois de ouvir Paulo Autran recitando, jamais conseguirei ouvir ninguém mais recitar nenhum verso. Eu mesmo, quando pego o meu Antologia Poética de Drummond, se não gosto ou não entendo um poema, releio imaginando a voz do Paulo Autran. E então tudo passa a fazer sentido.
Um verso tem me perseguido. As cartas de amor, escreva a lápis. É um verso de 3 anos, que nunca se realizou em poema. As cartas de amor, escreva a lápis. E provavelmente, agora que está exposto, nunca se realizará. Talvez em um dia qualquer, quando estiver fazendo qualquer coisa banal como apontar um lápis, arrumar meus infinitos papéis ou, escrever um post...
Pausa.
A mulher, a dos versos que não gostei, no instante em que escrevia, resolveu me dizer os seguintes poema:
Convive com teus poemas, antes de ecrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrado
no espaço.
(Procura da Poesia - Drummond)
Está bem, está bem. Todas as histórias por trás dos versos. Todas as letras ocultas que não se vêem, e todas as histórias que cada um me trás, como um filho que fosse parecido com uma mãe que eu não amasse mais. Conviverei com o verso. As declarações de amor, escreva a lápis. E ele se fará quando quiser.
E este post sem tema, sem graça e sem título, não foi por fim, inútil.
12/08/2006
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4 comentários:
Este post têm título, tem tema e tem graça...
Que verso lindo!
Verdadeiríssimo, principalmente para quem entende de coisas provisórias...
Amei. Que vontade de roubá-lo!!!!!
Bjos e bom findi!
Ps: Não sei arrumar o link. Aceito ajuda.
Esqueci...
Espero que esse verso amadureça e desabroche num lindo poema!
Qual livro de Picasso c está lendo? Comprei um sobre ele... 'Picasso: criador e destruidor', mas ainda nem comcei a ler.
Po, to precisando do Paulo Autran pra me fazer entender o seminário 20 de Lacan, vai ver só ouço essa mulher que narrou os versos do drummond em minha cabeça, por isso não tem entrado nada.
Simplesmente fantástico!
Agora só esse verso importa, qualquer outro verso será um adorno...
Virou como o microconto, o micropoema.
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