10/31/2006

CAFUNEGRANTUNKERWERT

Conversando aqui em Florianópolis com uma menina alemã que dá seus tropeços no português (vive com o dicionário do lado), comentava que muitas palavras do português "brasileiro" tem origem indígena ou africana.

Tapioca, Mirim, Neném. Fui tentando lembrar, e ia explicando o significado.

- Ah! Tem "cafuné" também.

(sotaque) - E o que é "cafuné"?

- Cafuné! (fazendo cafuné na minha própria cabeça)

- ...? (cara de interrogação)

- Cafuné (fiz cafuné nela)

- Cabelo?

Eu acho que os alemães não possuem o hábito de fazer cafuné uns nos outros. Eu poderia ter dito que é "coçar a cabeça", mas não seria verdade. O cafuné é diferente...

Tem coisas que não tem tradução.

10/28/2006

Um dia ele me explicou a origem de seu inóspito apelido. Havia se apaixonado por uma mulher. E embora fosse do tipo conservador, por essas ironias do amor, sua amada tinha idéias um tanto avançadas para ele. Com quase cinco anos de casado, como o casal andasse divergindo muito, ela propôs que eles conhecessem outras pessoas, saíssem sós com os amigos. Como não sabia dizer não para ela, ele aceitou e a via chegar em casa quase sempre tarde da noite. Mas ele não se interessava, não queria, não tinha olhos para mais ninguém e, para não ficar desmoralizado, passou a fazer turnos extras no trabalho para que ela pensasse que ele estava na farra. Seus superiores não se incomodavam já que ele produzia uma barbaridade e não pedia hora extra. Chegou a levar um colchão e a passar algumas noites por ali mesmo, tudo para impressionar a mulher. Esta estranha situação durou pouco mais de um mês, até que ele encontrou o carro dela estacionado em frente da loja que ela tinha, arrumando o estoque às 3 da madrugada.

10/23/2006

Eu me lembro que logo depois, nos dias que se seguiram, senti uma dor muita grande, de perda, de ausência, de falta. Não como a falta de um objeto, de uma coisa, e nem como a falta de um braço ou uma perna. Sentia-me como alguém que tivesse acordado e a quem tivessem levado a história. Um ladrão que subtraísse a infância, ou toda a vida de antes, ou um ou dois anos, que fosse, mas que se desse um salto no tempo sem que você soubesse quem é, onde está, e como teria chegado até aqui. Assim são as dores de amor, muito mais belas nos romances do que nas biografias.

OUTROS SONHOS

Sonhei que o fogo gelou
Sonhei que a neve fervia
Sonhei que ela corava quando me via

Sonhei que ao meio-dia
Havia intenso luar
E o povo se embevecia
Se empetecava João
Se emperiquitava Maria

Doentes do coração
Dançavam na enfermaria
E a beleza não fenecia

Belo e sereno era o som
Que lá no morro se ouvia
Eu sei que o sonho era bom
Porque ela sorria
Até quando chovia

Guris inertes no chão
Falavam de astronomia
E me jurava o diabo
Que Deus existia

De mão em mão o ladrão
Relógios distribuía
E a polícia já não batia

De noite raiava o Sol
Que todo o mundo aplaudia
Maconha só se comprava
Na tabacaria
Drogas na drogaria

Um passarinho espanhol
Cantava essa melodia
E com sotaque esta letra
De sua autoria:

Sonhei que o fogo gelou
Sonhei que a neve fervia
E por sonhar o impossível
Sonhei que tu me querias...

(Chico Buarque de Holanda)

10/21/2006

PEQUENAS DENÚNCIAS FRACTAIS I


Um fractal é uma forma composta por infinitas repetições de si mesma, sendo que cada uma dessas repetições também é constituída de infinitas repetições de si mesma. Assim, cada parte, qualquer parte, da figura, têm em si o todo da forma.


A partir daí. Infinitas teorias. Infinitas, como os fractais.

Seriamos nós fractais, partes de um todo mas contemos em nós o espelho desse todo? Unimultiplicidade (Tom Zé e Ana Carolina) "onde cada homem é sozinho a casa de toda a humanidade"? E se somos fractais, o que é o todo? Deus? Inconsciente? Chuq Norris?

Calma, esse post não tem nada de metafísico.

Mas às vezes percebo como algumas ações que tenho, pequenas, contém o que sou. Nesse caso, o "todo" sou eu mesmo. Por exemplo o café.

nota: as minhas maiores investigações filosóficas sempre são metáforas do ato de tomar café. sim. eu tomo bastante café. e mais, faço o café no fogo, o que tornou esse processo como um ritual do qual não me livro chegando até a dispensar a cafeteira quando existe uma por perto.

Sempre, sempre, sempre, quase sempre, coloco 4 colheres de açúcar no café. Nem 3, nem 5. 4 colheres. É o número que combina com o café, segundo meus 23 + 1 anos de experiência na arte de tomar café. Se isso fosse um hábito de toda a humanidade, um dia algum historiador iria justificar que a primeira colherada era em homenagem aos plantadores de café, a segunda para os comerciantes de café, a terceira para os fazedores de café, e a última para a deusa Arthemis, ou algo que o valha... Mas como dificilmente isso se tornará um hábito de toda a humanidade (apesar de Unimultiplicidade), decerto passará por baixo dos radares da história.

Desviei-me...

Sempre coloco 4 colheres de açúcar. Isso soa, aparentemente, muito conservador e rígido. Uma metodologia desnecessária. Constante demais, inflexível. Será que é assim que as pessoas me vêem?

Sempre coloco 4 colheres de açúcar.

Mas sempre mudo o tamanho da colher.

10/17/2006

TOP TOP TOP

O orkut me matou uma curiosidade. Tava pensando esses dias qual seria a maior de todas as comunidades. E não é que ele agora ordena todas as comunidades por tamanho? Olha só como está a primeira página hoje:

1. Eu odeio acordar cedo.

_ muito justa, embora eu mesmo não tenha graaandes problemas. nem noctívago, nem matutino. funciono bem das 8:00 às 24:00, sem problemas. aliás, isso dá um post.

2. Eu amo chocolate.

_ depois de uma "eu odeio ...", uma " eu amo ...". também acho justa a colocação. adoro chocolate, embora (sempre tenho um "embora") tenha vontade de rir de quem te olha e diz "eu não vivoooo sem chocolate". de rir ou de dar uns tapas, varia. isso vale pra "não vivo consigo viver sem música", "eu não consigo viver sem celular" e todos os outros "eu não consigo viver sem...". acredite criança, tu só não consegue viver sem oxigênio, água e comida. o resto é frescura. isso tb dá um post.

3. Eu acredito e confio em Deus.

_ bah. olha aí Deus. tá perdendo pro chocolate...

4. Só mais 5 minutinhos.

_ o pessoal não gosta mesmo de acordar cedo (vide nº 1). também, fica de noite no orkut...

5. Eu adoro dar risada.

_ apesar de ser sobre risada, não me ocorreu nenhum comentário engraçado.

6. Eu amo meu Pai.

_ olha só. você esperava um "eu amo minha mãe"? eu fiquei surpreso... merecia um estudo antropológico. talvez seja porque a maioria das pessoas que entra nessas comunidades são mulheres, e as mulheres são mais ligadas com os pais. eu sei lá. chutei mesmo, e daí?

7. Eu odeio gente que se acha.

_destaque para a proibição da "corrente da samara"

8. Sou legal, não tô te dando mole.

_hum...

9.Deus me disse: desce e arrasa!

_uma variação meio suspeita da frase do Romário.

10.Sou + eu, se vc ñ é AZAR o SEU

_conflito direto com o pessoal da 7ª colocada.

11.Eu sou contra o preconceito

_primeira politicamente correta. está escrito: comunidade fechada palra eleições de moderadores. nossa, nunca vi isso. eleição de moderador de comunidade. isso é que é democracia.

12. Eu AMO Batata Frita

_fechando a primeira página e a primeira dúzia.

CONCLUSÃO: o usuário do orkut não gosta de acordar cedo, ama o pai, almoça batata frita e come uma barra de chocolate na sobremesa, se acha e não gosta que os outros se achem, é legal mas não dá mole e ri de tudo.

acho que vou sair do orkut.

10/15/2006

A cevada e a rosa

Voltando da OcktoberFest Blumenau, pensei em fazer um post sobre a viagem.

Mas com o falecimento da Naira, esposa do meu amigo e ex-professor Van Dal, só posso me lembrar da efemeridade da vida.

10/13/2006

PROVA DE AMOR

Se você me ama mesmo, e se nosso amor é pra sempre, você vai me passar a senha do seu orkut.

10/11/2006

EU, EU MESMO E SÓ

Ontem, logo após perceber que meu cartão tinha sido misteriosamente bloqueado (depois ele misteriosmente se desbloqueou), passei em frente a um ponto de ônibus com algumas pessoas. Quem estava entre elas? Eu mesmo. Eu? Bom, não era exatamente eu, mas um cara muito parecido comigo. Não que eu seja um tipo muito difícil, estou muito mais para a regra do que para a exceção, uma espécie de vira-lata brasileiro, srd. Mas mesmo assim foi curioso.

Era um pouco mais baixo que eu, magro igual, com o cabelo meio grande. E mesmo as roupas, a mochila, tudo lembrava. Aproveitei a oportunidade para tentar imaginar como as pessoas me vêem quando me encontram porque nem no espelho a gente tem essa sensação. Não sei se a impressão foi boa ou ruim. Deixemos as especulações qualitativas para outro dia.

O que restou da experiência foi a singela descoberta de que as pessoas devem me olhar da mesma maneira que eu as olho. Como um outro, um diferente. E todas as pessoas estão convivendo nesse momento em que escrevo, fazendo coisas, existindo. Elas não se criam quando chego e se dissolvem quando sigo. Tudo isso em quatro ou cinco segundos que fiquei ali, espantado com a minha presença em outro lugar que não o meu. Mas logo um carro parou e eu atravessei. Mesmo porque, esse negócio de ficar olhando homem na rua pode depôr contra a minha pessoa...

10/05/2006

INTIMIDADE

Hoje vi um senhor de seus 70 anos, no meio da rua, tentando fazer funcionar o seu aparelho celular. A intimidade dele com o aparelho era tão desastrosa que resolvi fazer uma lista das 10 maiores empatias entre homem e objeto da história:

10º A tia do Lula e a urna eletrônica (aquela que errou o número e votou nulo)

9º Chaves e vassoura

8º Um beduíno e um guarda-chuva

7º Um esquimó e um camelo

6º Eu e patins

5º Meu vizinho e o pandeiro

4° Betão (zagueiro do corinthians) e a bola

3º Lula e uma metáfora

2º Roberto Requião e mamonas

1º Um alemão numa roda de samba